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Plásticos do mar e caules de rosas tornam-se tecidos made in Portugal

Capacidade inovadora da indústria nacional amiga do ambiente ficou à prova em Paris. Mostra regressa ao Porto nesta semana.

A indústria têxtil é a segunda maior poluidora do mundo, mas está apostada em reduzir a sua pegada ecológica através da economia circular e da sustentabilidade da produção. Tecidos produzidos a partir de novos materiais biodegradáveis como a cortiça ou o caule das rosas, ou a partir da reciclagem de resíduos das próprias fábricas ou de plásticos recolhidos no mar são algumas das inovações made in Portugal neste domínio. Seis delas estiveram em exposição nesta semana na Première Vision Paris como mostra da “capacidade inovadora” da indústria. Portugal foi o país foco da feira, a convite da organização, para dar a conhecer-se como “parceiro fiável de negócios na subcontratação”, e quis mostrar que inovação e I&D são dos seus fatores distintivos. Para a semana, a moda regressa ao Porto.

 

A 52.ª edição do Modtíssimo, o salão da indústria têxtil e vestuário, decorre na Alfândega, a 26 e 27 de setembro, e os têxteis técnicos e funcionais marcam presença no espaço iTechStyle, da responsabilidade do Centro Tecnológico da Indústria Têxtil e Vestuário (Citeve). Mas a grande novidade é o Green Circle, um espaço dedicado à economia circular e à sustentabilidade promovido pela Selectiva Moda e pelo Citeve, com o apoio de Paulo Gomes, do Manifesto Moda. “O toque de sustentabilidade, seja produzindo matérias-primas biológicas ou limitando o uso de materiais nocivos, já foi incorporado como um dos fatores dinâmicos da competitividade das empresas”, garante o presidente do Citeve, Braz Costa, reconhecendo que este é um movimento de resposta às exigências do próprio mercado e não uma moda. Maria José Carvalho, responsável de sustentabilidade no Citeve, garante que a responsabilidade social e ambiental é hoje obrigatória nas empresas, não apenas para que possam diferenciar-se de alguns dos seus concorrentes internacionais, mas também para o seu próprio funcionamento, já que acarreta consigo “vantagens organizacionais, motivacionais e económicas”.

 

No Green Circle será possível ver alguns dos tecidos mais inovadores transformados em produto final, em 11 parcerias de empresas têxteis com criadores de moda. Haverá ainda várias empresas com tecidos e peças elaboradas com base em resíduos das fábricas, fios e linhas usando fibras recicladas, biodegradáveis ou feitas a partir de produtos naturais alternativos, como a urtiga, ou botões produzidos com vários tipos de resíduos, como algodão, papel, cortiça, casca de arroz ou serrim. Sobre a promoção de Portugal em Paris como parceiro de confiança na subcontratação, Braz Costa recorda que o convite partiu da feira e que “parte substancial” do negócio da moda está assente na private label, o que “não constitui vergonha nenhuma”. Pelo contrário, diz, “iniciativas como estas são extremamente positivas e ajudam a posicionar Portugal no cenário internacional”. Mais, “o canal que melhores condições oferece a Portugal para chegar ao mundo inteiro é o private label”, frisa. Em Portugal, 90% da produção do setor da confeção destina-se a fornecer clientes internacionais, nomeadamente as grandes marcas de luxo.

 

CASOS

 

Somelos – Camisas de senhoracom fibra de rosas Demi é a novidade que a Somelos Tecidos esteve a apresentar em Paris, um tecido sustentável e biodegradável que combina algodão com fibra de viscose, extraído do caule da rosa, que lhe dá “um toque macio e luxuoso” e uma “aparência sedosa e brilhante”. A junção de microcápsulas dão-lhe propriedades aromáticas e tornam-no “interessante para o setor da camisaria de senhora”, diz Paulo Melo, administrador desta empresa familiar, dos poucos grupos verticais ainda existentes na Europa (produção do fio ao produto final), que dá emprego a mais de mil trabalhadores e fatura 60 milhões de euros. Os negócios industriais pesam 95% e praticamente tudo o que produzem destina-se, direta ou indiretamente, a exportação. Os EUA são o principal mercado, com uma quota de 20%, seguindo-se a Itália, com 15%. Paul Smith, Etro e J.Crew são algumas das grandes marcas de topo para as quais trabalha no mundo.

 

Sedacor – A cortiça tambémpode ser fiada Pela primeira vez na Première Vision esteve a Sedacor, a convite da própria organização da feira, onde deu a conhecer a sua mais recente inovação, o cork-a-tex yarn, um fio revestido com aditivos de cortiça, desenvolvido em parceria por esta empresa do grupo JPS Cork e pela Têxteis Penedo, e que pode ser aplicado em tecidos ou malhas para vestuário ou têxteis-lar. Um investimento de meio milhão de euros, que contou com o apoio do Citeve e da Universidade do Porto, e que, em 2019, estará em produção. Por definir está se será criada uma fábrica conjunta específica ou se cada um dos parceiros continuará a desenvolver o cork-a-tex nas suas instalações. Com 150 funcionários e uma faturação de 18 milhões de euros (30 milhões no grupo), a Sedacor está a desenvolver novos projetos nas áreas do desporto e em parceria com grandes retalhistas mundiais da área da moda e espera, neste ano, crescer 20%.

 

Penteadora – Desperdícios têxteis ganham nova vida Re.born é a nova aposta da Penteadora – Sociedade Industrial de Penteação e Fiação de Lãs que pegou nos desperdícios têxteis das três empresas do grupo Paulo de Oliveira, a que pertence, e criou uma linha de tecido cardado feito com, pelo menos, 50% de resíduos de lã gerados na produção do grupo. A receção dos clientes mostrou-se “muito positiva”. “Não é um produto para todos os clientes, mas há segmentos que se interessam muito. Isto vai implicar que, pelo menos, tenhamos de ter mais pessoas dedicadas à seleção das matérias-primas para serem incorporadas. Pelo menos, teremos de investir em mais pessoas”, diz António Teixeira, responsável da empresa. A Penteadora tem 400 trabalhadores dos 1200 que o grupo Paulo de Oliveira emprega e contribui com 30% das vendas do grupo, que ascendem a 80 milhões de euros. Especializada em tecidos para fatos e casacos, a Penteadora tem ainda uma linha de proteção individual, com tecidos antifogo e outro tipo de propriedades técnicas, que vende sob a marca Pentashield, que veste desde os bombeiros voluntários em Portugal aos bombeiros profissionais e à polícia de choque francesa.

 

Riopele – Tecidos velhoscom nova vida Tenowa é a nova marca verde da Riopele, que produz tecidos funcionais inovadores a partir de matérias-primas recicladas e incorporando ingredientes extraídos de resíduos agroalimentares para lhes conceder funcionalidades como a neutralização de odores ou antinódoa. José Alexandre Oliveira, presidente da empresa, garante que a preocupação com a economia circular na Riopele não se prende com questões de poupanças, bem pelo contrário. “São produtos mais caros, mas todos temos a obrigação de olhar para a área ambiental”, diz, assegurando que a diminuição do consumo de água no processo produtivo é outra das preocupações da Riopele. Com 1100 trabalhadores, a têxtil de Famalicão espera neste ano faturar 78 milhões de euros, quatro milhões acima do ano passado. Um “aumento fantástico” se tivermos em conta que as compras do grupo Inditex caíram 40%, diz José Alexandre Oliveira. Com uma produção mensal de 700 mil metros de tecido ao mês, a Riopele está a apostar em novos mercados emergentes, como o Japão, a Coreia e a China, para compensar a quebra no mercado espanhol. A Alemanha é o seu principal cliente, com 17,5% de quota. A empresa, que investiu 24 milhões de euros, entre 2014 e 2017, na modernização de equipamentos industriais, está a investir mais 17 milhões, designadamente na instalação de painéis fotovoltaicos e em “novas e mais eficientes” máquinas. Fornece Armani, Boss e Versace, entre outras marcas de luxo.

 

 

Lemar – Reciclados ao serviço da moda casual e de banho Presença habitual na feira é a Lemar, empresa de tecidos de Pevidém, Guimarães, especializada no segmento de banho e casual wear e que neste ano está a apresentar a sua primeira coleção desenvolvida com fios Seaqual, marca espanhola produzida a partir de plástico recolhido dos oceanos. Tem também uma linha com os fios da italiana Newlife, feitos a partir de desperdícios de plástico, mas recolhido em terra. A Lemar transforma os fios em pano, que tinge e estampa. “Toda a gente hoje pensa em renovar o planeta. Não houve um cliente que não nos pedisse reciclados. Há dez anos, quando apresentámos os primeiros produtos desse tipo, não deu em nada”, garante Manuela Araújo. Nórdicos, alemães, espanhóis e italianos são os grandes preocupados com o tema da sustentabilidade, garante a responsável da Lemar, que dá emprego a 40 pessoas. A empresa acaba de adquirir novos teares “de última geração”.

 

 

LMA – Uma coleção inspirada nos anos 1980 Especializada no fabrico de tecidos para as grandes marcas de desporto e outdoor, que absorvem 90% das vendas da LMA, a empresa de Rebordões, Santo Tirso, garante que a sustentabilidade foi sempre uma das suas preocupações, até porque os clientes assim exigem. Há dois anos investiu 40 mil euros para obter a certificação BlueSign. “Era isso ou perdíamos os clientes”, lembra Alexandra Araújo, sublinhando que “Portugal está a assistir a uma grande procura das marcas de desporto americanas, cansadas da falta de preocupação ambiental e até com os direitos humanos na Ásia”. A LMA fornece marcas como Champions, Kenzo, Kwai ou Mammut e usa também a fibra Sequal (poliéster reciclado de garrafas de plástico recolhidos no Mediterrâneo) na produção de malhas, designadamente para a marca de banho francesa Frescobol. E o que trouxe de novo a LMA à Première Vision? “Uma coleção reinventada a partir das grandes tendências dos anos 1980. Vão voltar os brilhos, os acetatos, os enrugados”, diz Alexandra Araújo. As grandes novidades técnicas a LMA guarda-as para apresentar, no arranque do ano, em duas grandes feiras da moda desportiva na Alemanha. Com 50 trabalhadores, a LMA faturou no ano passado nove milhões de euros.

 

Fonte: Dinheiro Vivo